Por Redação Giro Regional PR
ARTIGO DE OPINIÃO
O cidadão brasileiro é cobrado por praticamente tudo. Paga impostos, cumpre obrigações legais, é chamado às urnas e, durante uma eleição, é convidado a escolher quem terá nas mãos o poder de administrar o dinheiro público e tomar decisões que afetarão sua vida por anos.
Mas existe uma inversão nessa relação: enquanto o eleitor é submetido a uma série de obrigações, o candidato pode escolher quando, onde e diante de quem estará disposto a prestar contas.
A pergunta, portanto, não é se um candidato tem o direito legal de faltar a um debate.
A pergunta é outra:
Se a ausência em debates é juridicamente permitida, deveria continuar sendo politicamente aceitável?
A Band fez sua parte. Os candidatos, nem todos.
O primeiro debate presidencial promovido pela Band nesta eleição deveria ter acontecido em 16 de agosto, mas foi adiado para 23 de agosto após tratativas envolvendo as campanhas e a possibilidade de participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O adiamento aconteceu. O debate foi reorganizado. A estrutura foi preparada. As regras foram definidas.
E, quando chegou o momento, Lula não estava lá.
Flávio Bolsonaro também não.
Romeu Zema ficou de fora.
No palco, estiveram Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury.
É importante fazer essa distinção porque, diante do resultado, seria fácil concluir que o debate foi ruim.
Não necessariamente.
O trabalho da Band não foi o problema. O problema foi o esvaziamento do confronto.
Uma emissora pode organizar o melhor debate possível. Pode preparar regras, mediadores, estrutura, tempo de fala e condições para os participantes. Mas não pode obrigar um candidato a entrar no estúdio.
Pode, entretanto, perguntar por que ele não entrou.
E deveria.
Estratégia eleitoral não pode virar salvo-conduto
É possível compreender a lógica das campanhas.
Flávio Bolsonaro tinha um adversário central: Lula. Participar de um debate sem o presidente poderia significar transformar-se no principal alvo dos demais candidatos, sem a oportunidade de realizar o confronto que mais interessa à sua estratégia eleitoral.
É uma decisão politicamente compreensível.
Mas compreender não significa concordar.
Da mesma maneira, Lula pode ter seus motivos para escolher quais debates considera estratégicos. Pode avaliar a composição do palco, o formato, a presença dos adversários ou as condições políticas do encontro.
Tudo isso pode ser explicado.
Mas existe uma pergunta que não pode ser retirada do eleitor:
A justificativa é suficiente?
Porque o candidato pode escolher onde estará.
O eleitor também pode escolher em quem confiar.
E existe uma diferença enorme entre ter o direito de faltar e acreditar que a ausência não deveria produzir nenhuma consequência política.
Quem disputa a Presidência não está pedindo ao cidadão um simples voto.
Está pedindo que milhões de pessoas lhe entreguem, por quatro anos, o comando do país.
Nesse contexto, enfrentar perguntas e adversários não deveria ser visto apenas como uma obrigação de campanha. Deveria ser entendido como parte da responsabilidade de quem pretende governar.
Não é crime faltar a um debate.
Não é necessariamente ilegal.
Mas também não deveria ser necessário criar uma lei para lembrar a um candidato à Presidência que enfrentar o eleitor é, no mínimo, uma demonstração de respeito por quem está sendo chamado a decidir o futuro do país.
E os que compareceram?
Caiado, Renan Santos e Augusto Cury fizeram o que se esperava de candidatos que aceitaram o convite: estiveram presentes.
Apresentaram propostas, defenderam suas posições e trocaram críticas.
E protagonizaram um debate que, apesar de profissionalmente organizado, carregava desde o início uma ausência impossível de ignorar.
Também seria injusto cobrar deles uma guerra que talvez não fizesse sentido eleitoralmente.
Sem Lula e Flávio no palco, os três participantes tinham poucos incentivos para transformar o adversário ao lado no principal inimigo.
Por que Caiado deveria gastar sua principal munição contra Renan?
Por que Renan deveria concentrar sua estratégia contra Caiado?
Por que Cury deveria transformar um dos dois em seu principal alvo?
Os maiores polos de polarização estavam ausentes.
O resultado foi previsível: os três estiveram presentes, mas o confronto perdeu parte da intensidade que poderia ter tido.
Isso não significa que foram covardes ou que fizeram um debate ruim.
Significa que a ausência dos principais candidatos alterou a própria natureza da disputa.
Os púlpitos vazios acabaram dizendo tanto quanto os candidatos que estavam diante das câmeras.
Quando faltar começa a parecer normal
É aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre Lula, Flávio ou qualquer outro candidato.
Passa a ser sobre o modelo de eleição que estamos aceitando.
Se os candidatos perceberem que podem faltar a debates relevantes, apresentar uma justificativa de campanha e seguir normalmente sem que isso seja seriamente questionado, a ausência deixa de ser uma exceção.
Passa a ser estratégia.
E estratégia eleitoral não pode se transformar em salvo-conduto para evitar situações desconfortáveis.
Debates existem justamente para produzir aquilo que uma propaganda eleitoral cuidadosamente planejada não consegue produzir: confronto, improviso, réplica, tréplica e perguntas que não podem ser previamente editadas.
É ali que o candidato pode ser pressionado.
É ali que uma proposta pode ser questionada.
É ali que uma contradição pode aparecer.
É ali que o eleitor pode observar não apenas o que o político diz, mas como reage quando é contrariado.
Fugir dessa situação pode ser uma estratégia legítima.
Mas deveria ser também uma informação relevante para o eleitor.
E o jornalismo precisa fazer a sua parte
Aqui existe uma responsabilidade que não pode ser transferida para as campanhas.
O jornalismo não precisa escolher o candidato que o eleitor deve apoiar. Mas também não pode escolher pelo eleitor o que ele deve ignorar.
Se um candidato falta, a pergunta precisa ser feita.
Por quê?
A justificativa apresentada é suficiente?
O que ele deixou de responder?
Que perguntas deixou de enfrentar?
O que os outros candidatos teriam perguntado?
E, principalmente:
A ausência deve pesar ou não na decisão do eleitor?
Essa decisão não pertence ao jornalista.
Pertence ao cidadão.
Mas o jornalista tem obrigação de oferecer os elementos para que o cidadão possa tomá-la.
O problema começa quando a imprensa passa a tratar a ausência simplesmente como estratégia eleitoral ou quando diminui a importância do próprio debate porque os candidatos mais conhecidos decidiram não participar.
Classificar o encontro como um “debate de segunda divisão” pode parecer apenas uma análise de relevância eleitoral.
Mas existe uma consequência perigosa nessa lógica.
Se o candidato falta e, depois, a própria cobertura jornalística conclui que o evento não era tão importante porque ele não estava lá, quem saiu beneficiado pela ausência?
O candidato.
E quem perdeu a oportunidade de ouvir, comparar e questionar?
O eleitor.
O jornalismo não deveria passar a mão na cabeça de candidato algum.
Também não deveria persegui-lo.
Deveria fazer algo muito mais simples:
cobrá-lo.
O eleitor não precisa que a imprensa explique por que um candidato faltou.
Precisa que a imprensa pergunte ao candidato por que ele faltou.
E a Record?
A entrevista de Lula exibida pela Record no mesmo horário do debate da Band também merece ser discutida.
A emissora tem liberdade para definir sua programação. Não há problema em reconhecer isso.
Mas liberdade editorial não impede questionamento editorial.
Quando um dos principais candidatos à Presidência não participa de um debate e, no mesmo horário, aparece em uma entrevista em outra emissora, surge uma questão legítima:
Até que ponto decisões editoriais e estratégias de audiência podem acabar reduzindo o espaço de cobrança que o eleitor deveria ter?
Não é necessário afirmar que houve má-fé.
Não é necessário atribuir intenção.
Não é necessário acusar a emissora de favorecer ninguém.
Basta fazer a pergunta.
Porque é justamente para fazer perguntas incômodas que o jornalismo existe.
A conta continua chegando
Existe uma ironia difícil de ignorar.
O cidadão comum não escolhe se deve pagar seus impostos.
Não escolhe se precisa cumprir determinadas obrigações legais.
Não escolhe se deve comparecer às urnas quando a legislação determina sua participação.
Mas o candidato pode escolher se quer ou não comparecer diante do eleitor.
Legalmente, pode.
Politicamente, porém, a história é outra.
Candidatos não são funcionários obrigados a bater ponto em um estúdio de televisão.
São homens e mulheres que pedem ao cidadão o poder de governar o país.
E quem pede esse poder deveria compreender que prestar contas não começa depois da eleição.
Começa antes dela.
Lula pode ter seus motivos.
Flávio Bolsonaro pode ter os seus.
Caiado, Renan Santos e Augusto Cury podem ter calculado que não valia a pena transformar o debate em uma guerra entre eles enquanto os principais adversários estavam ausentes.
Tudo isso pode ser estrategicamente compreensível.
Mas eleição não é apenas estratégia de campanha.
É prestação de contas.
E talvez seja justamente aí que esteja o ponto que não podemos perder de vista:
O candidato pode escolher onde não estará.
O eleitor pode escolher muito bem em quem não votar.
Se a ausência em debates é juridicamente permitida, deveria continuar sendo politicamente aceitável?
Essa resposta não cabe à Justiça.
Não cabe à emissora.
Não cabe ao candidato.
E não cabe à imprensa responder pelo cidadão.
Cabe ao eleitor.
Mas, para que ele possa responder, alguém precisa fazer as perguntas.
Porque, no fim, a conta continua chegando para quem vota.
E a prestação de contas deveria começar antes mesmo de o voto ser depositado na urna.
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